O primeiro episódio de A Voz das Cores é dedicado à pintura intitulada Trompe l’oeil com Gravuras, Partitura, Agnus Dei e Medalha de Santo António, da segunda metade do século XVII, acervo do Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, em Évora. Atribuída a Marcos Fernández Correa, é uma pintura que representa um trompe l’oeil, subgénero das naturezas-mortas que teve grande destaque na pintura sevilhana barroca.
Nas palavras de Alfonso Pleguezuelo:
“Trata-se de um óleo sobre tela relativamente bem conservado e corretamente restaurado. Representa três tábuas de pinho pregadas à parede e que têm em cima oito objetos, sendo que, como é habitual neste género, esses objetos parecem relacionar-se casualmente. Em cima, à esquerda, figura uma pequena gravura, de meio corpo, de São José com o Menino, descrevendo um momento de intimidade paterno-filial. De maior tamanho e centrada na tela aparece uma outra gravura que representa São Francisco de Paula no episódio biográfico do milagre do estreito de Messina. O terceiro objeto é um fino frasco cilíndrico, hermeticamente fechado e pendurado num prego. No rótulo colado no vidro lê-se apenas: «Lau/gre», talvez láudano, um potente analgésico opiáceo descoberto por Paracelso no século XVI e popularizado no século XVII. À sua direita, também pregada na tábua, encontra-se uma pequena gravura de Santa Bárbara. Mais abaixo, pendurada num prego, uma medalha oval pintada com uma imagem, de meio corpo, de Santo António com o Menino Jesus. Os três últimos objetos aparecem na parte inferior do quadro, presos às tábuas por uma fita de tafetá cor-de-rosa. À esquerda, um selo do Agnus Dei, feito de cera vermelha, junto a um papel branco. À direita, enfiada numa partitura musical enrolada, uma pequena gravura de São Francisco Xavier. A partitura que envolve a gravura deixa ver o pentagrama e, por baixo, é percetível a letra incompleta de uma composição religiosa: “dorme e nas alfombras dessa esmeralda / Dorme q. mais te vale essa quietude…/ Dorme que há esperança q. a tua quietude…”.
Embora o texto incompleto não coincida literalmente com a versão mais conhecida, poderia tratar-se do vilancico intitulado Dorme, rosa, e descansa, do célebre compositor Sebastián Durón (1660-1716), introdutor na Península Ibérica da música barroca.
A música de Sebastián Durón, o alegado autor da partitura representada, foi o ponto de partida para a escolha musical, que incluiu igualmente obras de Emmanuel Chabrier; Manuel de Falla; Francisco Guerrero; Luís de Freitas Branco; Palestrina; Gustav Mahler; Isaac Albéniz e Claude Debussy, numa lógica de livre associação pictórico-musical a partir dos elementos representados na tela.
Andrea Lupi

© Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo
Trompe d’Oeil com gravuras, Séc. XVII
Museus e Monumentos de Portugal, E.P.E / Arquivo de Documentação Fotográfica
Fotografia de Luísa Oliveira / José Paulo Ruas