A edição de Supernova desta semana é iluminada por sons oriundos do oriente, nomeadamente com o compositor japonês Joe Hisaishi, mas também com um novo álbum inspirado num conceito oriental, com as reinterpretações de três Sonatas para piano de Beethoven por Mitsuko Uchida, e a fechar, com um diálogo entre música e cinema, pela Orquestra Sinfónica de Singapura.
Na viagem desta semana, Inês Almeida apresenta ainda um trabalho de um duo de pianistas que vai em busca do que é comum à expressão pessoal de três compositores muito distintos, e as três ‘sinfonias da guerra’ de Chostakovitch, em particular a 8ª, dirigidas por Andris Poga e a sua Orquestra Sinfónica de Stavanger.
Nada como a música refrescante para mitigar os efeitos de um Verão abrasador. Hoje o Supernova abriga-se à sombra de um novo álbum da editora Deutsche Grammophon que será lançado a 24 de Julho, mas já anda nas bocas do mundo. Afinal, reúne obras do grande compositor japonês Joe Hisaishi, amado por todos graças às belas partituras que escreveu para os filmes de animação de Hayao Miyazaki. Essas obras são: a Sinfonia nº 3, “Metaphysica” (2021) e o Concerto para harpa (2024). Hisaishi compôs a Sinfonia nº 3 para as celebrações dos 50 anos da Nova Filarmónica do Japão. Pegando na definição de “metafísica” (Cambridge University), segundo a qual se trata de uma das filosofias que dizem respeito à compreensão da existência e do conhecimento, Hisaishi quis realçar o domínio da lógica sobre a sensação e a experiência compondo uma obra feita exclusivamente de movimento sónico. O Concerto para harpa e orquestra foi escrito para o harpista principal da Filarmónica de Los Angeles, Emmanuel Ceysson, que o estreou em Novembro de 2024 e faz aqui, com a Royal Philharmonic Orchestra, a sua 1ª gravação mundial. A obra revela a preocupação de Hisaishi com o virtuosismo do solista, já que Ceysson tem uma sonoridade mais robusta, ou mais musculada, do que a maioria dos harpistas. A acompanhá-lo está um corpo orquestral com cordas, pares de madeiras e de metais e um vasto naipe de percussão; surpreendentemente, há também uma 2ª harpa que reflecte e acentua as intervenções do solista. A direção está a cargo de Joe Hisaishi (ed. DG).
No passado dia 3 de Julho, ficámos a saber o significado do título do álbum do duo formado pelas pianistas Ekaterina Zhemaitis e Polina Kulikova. In Search of Lost Time (Em busca do Tempo Perdido, com ressonâncias proustianas) remete-nos para o que une, afinal de contas, três obras escritas em 2007, 1935 e 1910, em Munique, Paris e Moscovo, por Rodion Shchedrin, Igor Stravinsky e Sergei Taneyev, respetivamente. Ou seja, obras de épocas históricas diferentes, escritas em circunstâncias de vida distintas por três homens que pouco tinham a ver uns com os outros para além de terem vivido no século XX e estarem ligados à cultura russa. Contudo, Zhemaitis e Kulikova concluem que os três compositores usaram ideias artísticas semelhantes na sua busca pessoal pela expressão musical. Cada um, à sua maneira, se voltou para o passado para encontrar soluções de escrita, pelo que o programa do disco releva uma inesperada coerência que emerge do diálogo entre memória e invenção, apesar das rápidas mudanças em curso e do aparecimento de novos estilos e técnicas que se sucediam a grande velocidade. Taneyev está representado por Prelúdio e Fuga, Sol# m, Op.29 (versão para 2 pianos, de 1914), triunfo da coesão, da unidade temática e motívica e da mestria da técnica contrapontística. O Concerto para dois pianos de Stravinsky olha para Beethoven e Brahms e encontra neles os princípios de uma espécie de sonata sinfónica. Shchedrin compôs os Duetos Românticos ao estilo de suite constituída por 7 peças em sequência ininterrupta, formando uma linha dramatúrgica que traça o diálogo entre o romantismo e a linguagem musical contemporânea (ed. Genuin).
O Quarteto Emissary é formado por flautistas a viver nos EUA. Já se apresentou com sucesso em várias convenções em torno da flauta e recebeu prémios e distinções pelo seu trabalho de exploração das capacidades dinâmicas expressivas do grupo de flautas transversais. Para tal tem recorrido à encomenda de novas peças e o seu álbum de estreia é um dos resultados desse processo de curadoria artística. Momentum inspira-se no conceito japonês de modulação e movimento (progressão natural) designado «jo-ha-kyu» e aplicado a uma vasta panóplia de artes tradicionais japonesas. A tradução livre do conceito poderá ser «início – quebra – rápido», ou seja, começo lento (jo), aceleração através do desenvolvimento (ha) e conclusão rápida e poderosa (kyu). Teve origem na música de corte gagaku, especificamente na maneira como os elementos da música podiam ser distinguidos e descritos e está hoje presente, também, em obras de compositores vivos, como Jennifer Higdon, Kai-Young Chan, Nicky Sohn, Sung-Hyun Yun, ou Herman Beeftink. Cada compositor utiliza as texturas e os timbres únicos da flauta e das flautas auxiliares para evocar um sentido de transformação contínua, desde as paisagens sonoras meditativas e gradualmente reveladas das obras iniciais, até às passagens mais dinâmicas e ritmicamente intricadas que criam uma sensação palpável de urgência e energia (ed. Orchid).
No dia 24 de Julho sairá, também, a gravação da 8ª Sinfonia, Do m, Op.65, de Dmitri Chostakovich pela Orquestra Sinfónica de Stavanger, sob a direção de Andris Poga. É o seu 2º disco dedicado à obra sinfónica do compositor russo entre 1941 e ’45 – 3 Sinfonias, nos 7, 8 e 9, chamadas, portanto, «sinfonias da guerra». A 8ª é a mais imponente, fruto dos dias negros de 1943. No Verão desse ano, Chostakovich estava a residir num retiro pertencente à União dos Compositores Soviéticos e, longo do ruído do conflito em larga escala, compôs a partitura em apenas dois meses. Em Novembro, a Sinfonia seria estreada sob a direção de Evgeny Mravinsky, com a crítica a comentar positivamente o modo como a música transmitia com eficácia a fúria do povo russo perante a invasão nazi. Chostakovich assegurou, por seu lado, que a obra reflectia o bom momento criativo influenciado pelas vitórias do Exército Vermelho. Reconheceu, ainda, os conflitos internos, trágicos e dramáticos, da Sinfonia, defendendo, contudo, que se tratava de uma obra optimista. Em 1948, no contexto de uma condenação alargada por parte do Comité Contral do PC ao “formalismo decadente” nas artes, a obra foi alvo de redobrada censura por causa do seu “pessimismo” e “individualismo doentio”, pelo que ficou esquecida até ao final da década de 1950 (ed. LAWO).
Mitsuko Uchida brinda-nos, este Verão, com o disco onde ficaram registadas as suas interpretações das três últimas Sonatas para piano de Beethoven na Suntory Hall de Tóquio, no Japão, em Outubro de 2025: Sonata nº 30, Mi M, Op. 109; Sonata nº 31, Lab M, Op.110; e Sonata nº32, Do m, Op.111. É a sua última palavra sobre estas extraordinárias obras, que já tinha gravado em 2006. Três monumentos da literatura para piano solo concebidos entre 1820 e 1822, transcendendo a sonata clássica através da profunda introspeção e das viagens emocionais, desde a luta à serenidade (ed. Decca).
A Orquestra Sinfónica de Singapura propõe-nos um diálogo entre o concerto e o cinema no disco com o Concerto para flauta de John Williams, o Quinteto para clarinete (e cordas), de Bernard Herrmann e, ainda, a Suite para 5 instrumentos de sopro, de Hugo Friedhofer. Um cativante programa que se rende ao engenho com que estes compositores souberam tirar partido da sua experiência na escrita para o grande ecrã e, ao mesmo tempo, emancipar-se dela no momento de criar obras absolutas para a sala de concerto. O Concerto de Williams (1965) é descrito como obra de impressionante imaginação e alcance expressivo, na qual o compositou pretendeu recriar as atmosferas evocadas pelos grandes mestres da flauta japonesa shakuhachi. A Suite de Friedhofer é uma das 1ªs gravações mundiais do disco. Partitura de texturas inventivas e versatilidade estilística, escrita em 1973 e destinada a flauta, oboé, clarinete, fagote e trompa. A outra 1ª gravação mundial é do Quinteto de Herrmann (1967), na versão orquestral de Hans Sorensen, com Ma Yue como solista. Tem o subtítulo “Souvenir de Voyage”, com cada andamento baseado numa obra literária ou pictórica: o 1º inspira-se no poema On Wenlock edge, de A.E. Housman; o 2º é inspirado na peça Riders to the Sea, de John M. Synge; e o 3º está ligado às aguarelas venezianas de J.M.W. Turner (ed. PentaTone).
Inês Almeida
