Nos 270 anos do nascimento de Mozart, celebrados pela Antena 2, Banda Sonora de Mafalda Serrano convida, neste episódio, à revisitação de Amadeus, filme icónico e simultaneamente polémico, cujo cerne abriga a tensão nunca resolvida entre história e fábula, entre celebração e inquietação, entre a música como documento e a música como mito vivo.
30 janeiro | 21h00
Amadeus (1984)
Realização: Milos Forman
Música: Wolfgang Amadeus Mozart
Rever este filme que Milos Forman – autor da nova vaga polaca -, realizou em 1984, é regressar a um território onde a banda sonora funda a imagem, para atravessá-la e excedê-la, convocando o espectador para uma escuta renovada das obras de Mozart enquanto matéria narrativa e ética. Cada excerto musical é escolhido como gesto dramático, como inscrição do génio no tempo do cinema, e é nessa articulação rara entre som e imagem que o filme se transforma numa reflexão sobre a criação, sobre o desejo de reconhecimento e sobre a paixão — luminosa e violenta — que o génio suscita.
A elegância clássica da escrita cinematográfica, o ritmo interno da montagem e a harmonia formal com que Forman constrói o seu mundo não escondem, porém, o imenso desconforto que o habita. O filme é narrado por António Salieri, figura central e consciência trágica, cuja voz desloca o eixo da narrativa para o interior do ressentimento e da admiração ferida. É ele quem nos conduz pelo labirinto do Eu e do Duplo: Mozart como presença absoluta, Salieri como sombra reflexiva. Amadeus coloca-nos perante uma das mais persistentes interrogações do próprio cinema: como representar o irrepresentável, como filmar o génio sem o reduzir, como transformar a música em imagem sem lhe retirar o mistério.
Rever este filme é também escutar como o cinema, aqui, se torna espelho e duplo de si próprio. E talvez seja por isso que permanece na memória uma das cenas mais discretas e perturbadoras: quando Salieri, com cortesia envenenada, oferece a Constanze Mozart pequenas iguarias confeitadas, doçura e cortesia onde já se anuncia, sob o açúcar, a ameaça crescente da sombra.
Mafalda Serrano