A 10 de janeiro de 1926 nascia um dos mais importantes artistas plásticos portugueses do século XX. Júlio Pomar tem lugar cimeiro na História da Arte Contemporânea em Portugal pela sua atividade artística – na pintura, no desenho, na escultura, na gravura, nas colagens e na cerâmica, e mais tardiamente na poesia -, mas também pela sua ação estética e cívica que marcou os movimentos culturais e artísticos do seu tempo.
A Antena 2 assinala esta efeméride com uma grande reportagem de Isabel Meira, “Um quadro, para além de ser mulher ou cavalo ou limão“, que pode escutar, e ler, em baixo, mas também nos programas A Voz das Cores e Café Plaza.
A repórter Isabel Meira foi em busca de outros prismas da vida e obra de Júlio Pomar, num diálogo entre as palavras que nos deixou em várias passagens pela rádio, e os testemunhos de pessoas próximas da sua vida pessoal ou da sua obra.
“Um quadro, para além de ser mulher ou cavalo ou limão“
Reportagem de Isabel Meira
“Tive uma boa vida, só fiz o que quis”, disse Júlio Pomar à mulher, Teresa Martha, pouco tempo antes de morrer, em 2018, tinha o pintor 92 anos. A frase resume o espírito livre de um dos maiores nomes da arte portuguesa do século XX e, na altura em que se comemora o centenário do seu nascimento, “eu acho que isto é o retrato dele”, reflete a viúva, sorrindo perante a constatação de que Júlio Pomar “nunca fez concessões”.
Do primeiro quadro vendido a Almada Negreiros, em 1942, quando tinha 16 anos, ao pintor que vencia a fragilidade do corpo e continuava a pintar aos 90, o percurso de Júlio Pomar atravessa mais de sete décadas de uma produção artística sempre em transformação, cruzando o desenho, a pintura, a gravura, a cerâmica, a escultura, as assemblagens, a teoria da arte, a poesia ou as letras para fados.
Escutamos a voz e o pensamento de Júlio Pomar, através de excertos de entrevistas realizadas por Igrejas Caeiro em 1958 no Rádio Clube Português (Arquivo RTP), João Almeida, Luís Caetano e Paulo Alves Guerra da Antena 2, e Helena Vaz da Silva em 1988 (entrevista cedida pelo Centro Nacional de Cultura). A voz de Pomar cruza-se com as memórias de Teresa Martha, que durante 40 anos viveu com o pintor entre Lisboa e Paris.
Vamos a casa do colecionador José Lourenço Soares, que tem mais de 30 obras de Pomar, e que descobriu, por acaso, nas costas de um quadro, um dos fragmentos de Semeador, obra de 1945, pintada na mesma altura que Gadanheiro, uma das telas mais icónicas de Pomar e inaugural do movimento neorrealista português.
Regressamos a Paris do início dos anos 1960 e 70, com o testemunho do pintor Jorge Martins, que conviveu com Júlio Pomar na capital francesa e que, ao contrário de Pomar, viu-lhe ser recusada três vezes uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian.
Escutamos as reflexões da historiadora de arte Raquel Henriques da Silva e de Sara Antónia Matos, diretora do Atelier-Museu Júlio Pomar desde a abertura, em 2013, sobre o legado e o lugar de Júlio Pomar na história da arte portuguesa.
“Um quadro, para além de ser mulher ou cavalo ou limão, é para mim o ir ao encontro de energias vitais”, afirma Júlio Pomar, entrevistado por Helena Vaz da Silva. Refletindo sobre o “máximo denominador comum” das várias fases da sua carreira, Pomar diz que o quadro é a tentativa de “integrar a pobre pessoa do pintor (…) nesse movimento cósmico”. Ou, como resume a viúva Teresa Martha: “a vida dele foi pintar”.
Isabel Meira

Nas celebrações do centenário de Júlio Pomar durante o ano de 2026, o Atelier-Museu Júlio Pomar, inaugurado em 2013, tem um papel fulcral e motriz. Visando destacar a importância do artista na arte portuguesa e o seu legado cultural e artístico, estão programadas várias iniciativas que pretendem divulgar e revalorizar a sua obra, mas também estimular a investigação e a reflexão crítica sobre a sua influência na modernidade e no presente.
O programa incluiu exposições antológicas, entre as quais A cola não faz a colagem e Pintura – Pintura e exposição itinerante internacional, organizada pelo Instituto Camões, várias publicações, das quais se destaca a edição da Parte Escrita IV da obra de Pomar e do 3º volume Catálogo Raisonné de pintura (1985-2018), ciclos de conferências e um prémio de pintura a um artista contemporâneo.
Outras entidades expositivas também decidiram organizar eventos no âmbito destas comemorações, como o Museu da Marioneta, em Lisboa, com a mostra Robertos. Desenhos de Júlio Pomar, ou o Centro de Arte Manuel de Brito (CAMB) com a Exposição comemorativa do centenário de Júlio Pomar.