A infância de Prokofiev e a sua música até à revolução russa

A infância de Prokofiev e a sua música até à revolução russa

Compositor do Mês

A infância de Prokofiev e a sua música até à revolução russa

A infância de Prokofiev e a sua música até à revolução russa

Compositor do Mês

Sergei Prokofiev é o Compositor do Mês em junho. De segunda a sexta-feira na Antena 2, vamos ouvir música sua nas emissões diárias, em edições especiais ou em programas como A Nossa Orquestra, A propósito da Música, entre outros. E todas as quartas-feiras acompanhamos um percurso pela vida e obra do compositor, conduzido por João Almeida.

Prokofiev: a infância e a música até à revolução russa (1891-1917)

Oficialmente Sergei Sergeievich Prokofiev nasceu no dia 27 de abril de 1891. É a data que consta na certidão oficial. O compositor, porém, sempre disse que tinha nascido 4 dias antes, a 23 de abril… seja como for, o local onde veio ao mundo chamava-se Sontsivka, uma aldeia rural na Ucrânia. No final do século XIX pertencia ao Império russo, mas atualmente chama-se Krasne, perto de Pokrovsk no Oblast de Donetsk. Sergei foi filho único. O pai era engenheiro agrónomo. As aptidões musicais que demonstrou na primeira infância foram de certo modo premonitórias.

Prokofiev, aos 9 anos, com a partitura de sua ópera O Gigante

Aos nove anos sabia o suficiente para conceber uma ópera intitulada O Gigante. Em 1902 a mãe de Prokofiev, pianista amadora, entusiasmada com a vocação do filho, decidiu procurar uma educação formal, conseguindo uma audiência com Sergei Taneyev, diretor do Conservatório de Moscovo. Outro professor, o famoso compositor Alexander Glazunov, deu-se conta do talento de Prokofiev incentivando-o a mudar-se então para São Petersburgo, onde lecionavam os mais respeitados professores do império, mestres como Rimsky-Korsakov e Tcherepnin. Sergei conheceu e tornou-se amigo de alunos mais velhos, também a caminho da consagração como compositores, nomeadamente Nikolai Myaskovsky.

Aos 16 anos Prokofiev compôs a Sonata para Piano nº 1. Vários anos mais novo do que a maioria dos seus condiscípulos, Prokofiev era visto como algo excêntrico e também arrogante, chegando a irritar alguns dos colegas por manter estatísticas sobre os seus erros.

Prokofiev aos 18 anos

Como autor, era (e continuou) conhecido como enfant terrible: sobretudo pelo atrevimento harmónico e por recorrer a melodias dissonantes e compassos incomuns, uma imagem que, de resto, ele próprio cultivava. Com a morte do pai, em 1909, o suporte económico desapareceu.

Prokofiev, porém, já tinha uma certa reputação como compositor. Foi nessa altura, aos 18 anos, que concebeu a Sinfonietta, inspirada na música de Rimsky-Korsakov.
A experimentação harmónica continuou com a escrita de 5 peças para piano a que chamou Sarcasmos: criações algo contrastantes e anotadas com expressões como tempestuoso, irónico ou precipitadíssimo. O compositor explicou o título da série: “às vezes rimos maliciosamente de alguém ou de algo, mas quando olhamos mais de perto, vemos quão patético e infeliz é o nosso riso”. No Verão de 1912 o jovem compositor arranjou um biscate trabalhando de manhã numa drogaria. A verdadeira razão que o tinha atraído para essa atividade extra, era o facto de haver um piano vertical no armazém da loja.
Foi aí que concebeu a Sonata para Piano nº 2, cheia dos contrastes súbitos característicos do autor. Prokofiev compôs também por essa altura os dois primeiros concertos para piano.
O Concerto para Piano nº 1, em jeito de toccata, mostra a marca distintiva do compositor, bastante enérgica.
O Concerto para Piano nº 2 chegou ao ponto de causar um certo escândalo na estreia: o público e alguma crítica impressionaram-se com o frenesim tanto do solista como da orquestra. Alguns espectadores consideraram-no demasiado futurista. Os modernistas, porém, ficaram extasiados.

Em 1913 Prokofiev viajou pela primeira vez para o estrangeiro, primeiro a Londres e depois a Paris, onde encontrou os Ballets Russes de Sergei Diaguilev.
O empresário encomendou-lhe o bailado O Bufão, baseado em contos populares. A estreia deste bailado foi um enorme sucesso, recebido com grande admiração por um público que incluía Jean Cocteau, Igor Stravinsky e Maurice Ravel.
Por essa altura Prokofiev concebeu também uma ópera intitulada Maddalena que, por vicissitudes várias, só seria estreada após a sua morte.
Seguindo a tendência lançada por Stravinsky, ou seja, sem receio de recorrer a um certo primitivismo (refletido por exemplo na Sagração da Primavera), Prokofiev concebeu a chamada Suite Cítia, evocando a cultura musical do povo cita, oriundo do Cáucaso (algures entre o Mar Cáspio e o Mar Negro). A Suite Cítia gerou o mesmo tipo de espanto que as obras mais telúricas de Stravinsky.

Em 1917 o compositor escreveu mais uma ópera, a primeira de longa duração, intitulada O Jogador, baseada na obra homónima de Dostoievski.
A estreia acabou por ser adiada devido à Revolução Russa nesse mesmo ano, altura, de resto, em que Prokofiev compôs também a Sinfonia nº 1, a que chamou ‘clássica’ por ter características que, segundo o autor, o próprio pai do classicismo, Joseph Haydn, teria usado se ainda estivesse vivo no início do século XX.
Uma obra também contemporânea do Concerto para Violino nº 1 onde, mais uma vez, encontramos uma vénia à tradição romântica.
João Almeida