Florence Beatrice Price

Florence Beatrice Price

Cem Sóis a Abater

Florence Beatrice Price

Florence Beatrice Price

Cem Sóis a Abater

A primeira série do programa de Inês Almeida sobre mulheres compositoras, Cem Sóis a Abater: Retratos de Mulheres Compositoras estreou no início de setembro. Cada episódio foca-se na biografia de uma personalidade, enquadrando-a no seu tempo e fornecendo pistas de escuta musical. Neste episódio, escutamos Florence Beatrice Price, consagrada compositora, pianista e organista clássica, foi a primeira mulher afro-americana a ser reconhecida como compositora sinfónica e a ter uma obra interpretada por uma grande orquestra nacional.

Florence Beatrice Price (1887-1953), pianista, organista, professora e compositora norte-americana, construiu uma obra singular ao aproximar a tradição musical europeia da memória cultural afro-americana.

Nascida em Little Rock, no Arkansas, foi a mãe que orientou a sua primeira formação na música; revelou precocemente um talento que a conduziu ao New England Conservatory, em Boston, onde concluiu, em 1906, os diplomas de órgão e de ensino do piano. Regressou depois ao sul para exercer a docência, chegando a dirigir o departamento de música do Clark College, em Atlanta.
A segregação racial condicionou profundamente o seu percurso e, em 1927, o agravamento da violência levou-a a partir com a família para Chicago. Na vida cultural da cidade encontrou novas possibilidades de estudo, criação e colaboração, apoiada por uma comunidade de artistas e mecenas onde se destacava a pianista e compositora Margaret Bonds.

O reconhecimento nacional chegou em 1932, quando a sua Primeira Sinfonia, em Mi m, venceu o concurso Rodman Wanamaker. Estreada a 15 de Junho de 1933 pela Orquestra Sinfónica de Chicago, sob a direcção de Frederick Stock, a obra tornou Price a primeira mulher afro-americana a ter uma composição orquestral de grande dimensão interpretada por uma orquestra reputada dos Estados Unidos.

Membros do Conselho da Associação Nacional de Músicos Negros. Florence Price 1ª à direita. Jan. 1941. Arquivo: Carnegie Museum of Art

A sua linguagem integrou espirituais, melodias pentatónicas, síncopas e ritmos da dança juba em estruturas sinfónicas, concertantes e camarísticas, conferindo-lhes uma expressão pessoal que convergia numa linguagem de síntese afro-americana e europeia.
Essa síntese percorre as Fantasies nègres para piano, o Concerto para Piano, as sinfonias e uma abundante produção de canções e peças para órgão. A cantora Marian Anderson contribuiu decisivamente para divulgar o seu repertório vocal, interpretando o arranjo de My Soul’s Been Anchored in the Lord no histórico concerto do Lincoln Memorial, em 1939.

Apesar destes êxitos, Price continuou a enfrentar a discriminação racial e de género, dificuldades económicas e obstáculos persistentes à apresentação das suas partituras. Entre o ensino, o acompanhamento de filmes mudos ao órgão e a escrita de música comercial, encontrou meios para sustentar as filhas depois do divórcio e prosseguir uma produção de várias centenas de obras marcadas pela riqueza melódica e pela inventividade rítmica.

Morreu em Chicago, a 3 de Junho de 1953, deixando parte significativa da sua música instrumental por publicar ou interpretar.
O trabalho continuado de investigadores e músicos, reforçado pela descoberta de manuscritos na sua antiga casa de férias, em 2009, permitiu recuperar obras como a Quarta Sinfonia e os Concertos para violino. A crescente circulação deste repertório devolveu visibilidade a uma criadora cuja contribuição alargou as possibilidades expressivas da música de concerto norte-americana e afirmou a experiência afro-americana como parte essencial da sua história.
Inês Almeida