Gavin Bryars é o músico em destaque neste episódio de O Nosso Tempo. A sua vida e o percurso musical iniciado no jazz, mas que evolui para a composição, misturando influências do jazz, música clássica e vanguarda, até se tornar uma figura central na música minimalista e experimental.
Gavin Bryars nasceu em Goole, no Yorkshire em 1943. Teve aulas de piano desde muito cedo, mas começou por estudar filosofia na Universidade de Sheffield antes de se voltar definitivamente para a música. E de trocar o piano pelo contrabaixo. Como músico deu primeiros passos no jazz, tocando contrabaixo num trio. Mas em pouco tempo deu por si a ser cativado pela música de compositores europeus como Karlheinz Stockhausen ou Olivier Messiaen e por norte-americanos como John Cage (com quem conviveu), Morton Feldman (que entrevistou) ou Earle Brown, isto sem esquecer o britânico Cornelius Cardew de quem se tornou amigo.
Gavin Bryars chamou primeiras atenções em 1969 com The Sinking Of The Titanic, uma obra que ainda hoje é talvez a mais celebrada das suas composições. The Sinking of The Titanic nasceu como primeira ideia a partir de um relato de Harold Bride, o operador de telégrafo do Titanic. Esse elemento da tripulação estava já num bote salva-vidas e ainda ouvia o ensemble de músicos que trabalhava a bordo do navio e que, ainda no convés, continuava a tocar. Era como uma calma estranha entre o pânico instalado entre os tripulantes e passageiros que procuravam escapar com vida naquela noite de 15 de abril de 1912. Gavin Bryars imaginou o que seria o som dessa música. E que efeito teria se continuasse a reverberar nas águas mesmo depois de o mar ter engolido o navio.
Em 1971 acompanhava, como técnico de som, a rodagem de um filme sobre quem vivia entre as estações de Waterloo e Elephant & Castle, em Londres. No decurso das filmagens um conjunto de pessoas começou a cantar. E entre elas um velho entoou um tema de cariz religioso, de inesperado optimismo. As imagens acabaram por não ser usadas e o compositor ficou com as fitas em suas mãos. Ao regressar a casa voltou a ouvir as gravações, e depois ensaiou um breve acompanhamento sobre a voz do velho que cantara Jesus Blood Never Failed Me Yet. E nasceu aí a base para uma obra maior que, tomando a repetição da gravação como medula, acabaria por se afirmar como a segunda das peças de maior referência de Gavin Bryars.
Na década de 70 acabou por deixar claro que a sua voz criativa não era coisa para deixar fechada apenas num corredor de ideias. E tanto acabou a criar música instrumental, assim como escreveu para formações de câmara. Estreou-se no teatro musical já nos anos 80 ao colaborar numa produção de Medeia de Robert Wilson. Até então não tinha ainda composto para orquestra nem mesmo para teatro. A evolução do projeto levou tanto Bryars como Wilson a encarar que Medeia seria afinal uma ópera.
Esta é parte do percurso que podemos encontrar no oitavo episódio de O Nosso Tempo, que nesta primeira temporada deu também a ouvir a música e as histórias de vida de Steve Reich, John Tavener, Eleni Karaindrou, Terry Riley, Ravi Shankar, Arvo Pärt e Moondog.
Nuno Galopim