Jazz a 2 evoca no episódio deste Dia Mundial da Música um evento historicamente relevante que ocorreu há exatamente 70 anos: a Orquestra de Count Basie subia ao palco do Cinema Império, em Lisboa.
Celebração do 70.º aniversário dos concertos dados
em Lisboa pela Orquestra de Count Basie (1956-2026)
A partir de meados da década de 1950, o panorama do jazz em Portugal começou a mudar muito significativamente. Com a fundação oficial do Hot Clube e a inauguração de novos cinemas, particularmente o Monumental e o Império, Lisboa passava a ter condições para receber os primeiros grandes concertos deste género musical. É um par deles, realizados há precisamente 70 anos, no dia 1 de Outubro de 1956, que celebramos hoje, Dia Mundial da Música. Nessa já longínqua data, subia ao palco do cinema Império a orquestra de Count Basie, uma verdadeira máquina de swing.
A ideia de trazer a orquestra de Count Basie a Portugal pertenceu a Luís Villas-Boas. Com efeito, desde meados dos anos 1950 que o radialista e fundador do Hot Clube procurava, sem sucesso, levar a cabo tal empreendimento, correspondendo-se com o agente europeu do referido grupo. A oportunidade apresentou-se, finalmente, em Abril de 1956.
Através de um telegrama, Richard Stangerup, o empresário dinamarquês, anunciava a Villas-Boas a disponibilidade para a realização de dois concertos no início de Outubro do mesmo ano, cobrando pelos mesmos 3 000 dólares.
Os espectáculos, que viriam a ocorrer no dia 1 daquele mês, só seriam possíveis graças ao cinema Império, inaugurado quatro anos antes, em 1952, e detentor de mais de 1 500 lugares sentados. De facto, tal lotação tornava economicamente viáveis os custos advindos do cachet da orquestra de Count Basie e de toda a logística e publicidade envolvidos. Os bilhetes não eram, porém, propriamente baratos; um lugar para a plateia custava uns expressivos 85$00.
Não obstante o risco comercial envolvido, a direcção do cinema Império assumira uma missão, a qual deixou bem expressa no programa do concerto, declarando que “ao contratar COUNT BASIE, a gerência desta sala procura actualizar o público lisboeta no campo da música moderna. Sem temor de ser mal interpretada, chama a atenção para este facto de enorme e perturbador significado: é a primeira vez que Lisboa tem num seu palco uma orquestra de jazz americana! E o IMPÉRIO trouxe-lhe a melhor de todas, a n. º 1”.
Em meados de Setembro de 1956, o Diário de Lisboa anunciava entusiasticamente a actuação da orquestra de Count Basie na capital. Informava o vespertino do Bairro Alto que:
Os dois únicos concertos que a melhor orquestra de «jazz» do Mundo dará no Império, em 1 de Outubro próximo, às 18 e 30 e às 23 e 45, serão acontecimentos musicais nunca vistos em Lisboa. Estes inigualáveis concertos proporcionarão o prazer da audição das três formas basilares e afins da música moderna — «blues», «boogie-woogies» e «swings» — dirigidas por quem mais se notabilizou na sua evolução até aos mais avançados ritmos da música de «jazz»: o pianista, compositor e director de orquestra Count Basie […] e de Joe Williams, o melhor cantor de «jazz» da América.
Luís Villas-Boas, por sua vez, tentava cativar o público escrevendo um artigo para O Século Ilustrado e divulgando abundantemente os concertos no programa Hot Club, transmitido pelo Rádio Clube Português.

Apresentados por Fernando Pessa, os dois concertos que a orquestra de Count Basie protagonizou no cinema Império, a 1 de Outubro de 1956, tiveram públicos relativamente diferentes. Se o primeiro, efectuado às 18h30 era dirigido a todas as idades, o das 23h45 só admitia maiores de 13 anos. Tal como sucedera dois dias antes na Suíça, em Lisboa eram vários os músicos notáveis que partilhavam o palco com Count Basie; incluíam-se entre eles os trompetistas Joe Newman e Thad Jones, os saxofonistas Frank Foster, Frank Wess e Marshal Royal, os trombonistas Benny Powell,
Bill Hughes e Henry Coker, e ainda o histórico guitarrista Freddie Green. O destaque da imprensa ia, porém, para Joe Williams, um jovem e talentoso cantor de 37 anos de idade.
Não sem alguma ironia, o Diário de Lisboa publicou uma breve recensão crítica sobre os concertos da orquestra de Count Basie. Sob o título “A música negra também arrebata o público de Lisboa”, reportou o jornal que:
A vinda da célebre orquestra de Count Basie a Lisboa foi, no dizer de um entusiasta, um acontecimento «histórico» para o «jazz» português, com o mais vivo significado. Estabelecidas as devidas proporções, o facto é que o público que assistiu aos dois concertos da banda do simpático negro Basie viveu horas intensas.
Francine Benoît, crítica musical do mesmo Diário de Lisboa – que um ano antes gerara polémica com a sua leitura do concerto de Sidney Bechet na capital –, mostrou-se bem mais positiva com o que lhe foi dado ouvir no cinema Império. Evidenciou até uma certa abertura à legitimação do jazz como música séria, tal como se depreende das suas palavras:
O responsável pelo grupo, Count Basie, (a simpatia bonacheirona em pessoa […]), usa de uma arte essencialmente discreta, faz-nos entrar de bloco na atmosfera evocada por um dos sentidos atribuído originariamente ao termo Jazz, que proviria do verbo francês jazer, tagarelar, falar por detrás da cortina.
Não nos parece que o espírito de Mozart ou de Chopin, para não dizer de Debussy, seja antagónico desta música, embora o mundo expresso seja outro; o jazz, este jazz, deixou a infiltração fazer-se em tantos músicos europeus que aceitaram a sua contribuição renovadora de ritmo e de timbre, mas continuou singrando sobre a imediatibilidade […] do folclore. Por sua vez, esta música em que a alucinação afro-americana imprimiu a sua marca ferozmente sensorial, candidamente mística, cultivada por grupos desta natureza, não rejeita subtilezas que se aproximam da erudição; sobre temas que de si são impositivos, o formulário gramatical não é pobre, os efeitos de instrumentação têm variedade; e a faceta virtuosística, levada a um paroxismo condizente com os valores temperamentais desenfreados, ao mesmo tempo de boa lavra, claro que não estraga nada…
Compositora, Francine Benoît, logrou mesmo elogiar a excelência dos músicos da orquestra de Count Basie. Nesse sentido, escreveu:
A improvisação não perde os seus direitos, mas enxerta-se, sob forma de variação, sobre uma composição estruturada, e algum, ou alguns dos 16 instrumentistas que compõem o grupo exploram com a propriedade e a qualidade de espantosos profissionais as particularidades dos seus instrumentos. Os saxofones atingem um aveludado que lhes confere a categoria que alguns compositores modernos já consagraram; as trompetes maneirinhas quase reatam a perdida tradição dos famosos trompetistas alemães pré-setecentistas; a maleabilidade dos trombones de varas fará a inveja de Ricardo Strauss; […].
A discrição do contrabaixo, que pode ser por natureza semelhante à do piano, vai a par com uma virtuosidade de pura água. A guitarra eléctrica (?) contribui curiosamente para centralizar os apoios: palmas sem rudeza e interpelações nunca guturais trazem mais uma nota de presença total; e a verdadeira alma do conjunto, a bateria […], simplesmente fenomenal, leva à maior potência; a ancestral arte do jogral malabarista. Tudo ri, brinca, fala, enlanguesce, raro se exime a exaltar-se até ao paroxismo, mas sem atropelar um verdadeiro sentido musical. E tudo parece idóneo, limpo, verdadeiro, legítimo.
Para apreciar devidamente o cantor Joe Williams, falta-nos compreender o que ele nos diz, e que mesmo assim temos por convincente, não menos típico do que toda a arte dos instrumentistas.
Nessa noite e aproveitando o longo intervalo entre os dois concertos no Império, o Hot Clube de Portugal ofereceu um jantar ao referido músico e também aos membros da sua orquestra. O repasto, que durante muitas décadas permaneceu na memória dos instrumentistas da big band, aconteceu na Tertúlia tauromáquica Festa Brava, cujas instalações ficavam paredes meias com a sede do clube de jazz, na Praça da Alegria.
Um dia depois, Villas-Boas referir-se-ia, no programa Hot Club, aos concertos que a orquestra dera no Império. Plenamente satisfeito com a afluência do público e o que tal significava para o futuro do jazz em Portugal, comunicou aos ouvintes que:
…julgamos que todas as dúvidas existentes até agora sobre o interesse do nosso público pela música de jazz se dissiparam com a presença de cerca de 3000 espectadores aos dois espectáculos ontem efectuados.
João Moreira dos Santos
[texto editado]
