Nesta semana, Supernova destaca nas novidades discográficas duas obras maiores da História da Música: o Requiem, de Verdi e a Sinfonia nº 3, Re m, de Bruckner. Também se ouve a musette francesa na música barroca, e a guitarra e o violoncelo em repertório do século XXI.
Supernova começa com uma das obras incontornáveis da História da Música: o Requiem de G. Verdi, composto entre 1868 e 1874 e estreado em Milão ’74, que foi inicialmente inspirado pela morte de Rossini e, por fim, pela morte de Alessandro Manzoni, figura importante da cultura e do nacionalismo italianos. Embora Verdi insistisse que a obra não deveria ser cantada como uma ópera, o Requiem é profundamente dramático, combinando o texto sagrado da Missa de Requiem em latim com contrastes poderosos entre terror, dor, penitência, misericórdia e esperança. A sua unidade musical resulta, em parte, da recorrência de motivos, sobretudo do aterrador Dies Irae, que reaparece ao longo da obra. Esta nova gravação de 2026 reúne a soprano Asmik Grigorian, a meio-soprano Deniz Uzun, o tenor Joshua Guerrero e o baixo Tareq Nazmi, juntamente com o Coro e a Orquestra de Cleveland, sob a direção de Franz Welser-Möst (ed. Cleveland Orchestra).
Friends in High Places é um álbum de Amanda Babington dedicado à musette (gaita de fole) francesa e ao seu repertório no século XVIII. O álbum mostra como a musette evoluiu de uma simples gaita de fole de pastores para um sofisticado instrumento de corte e de salão. A sua ascensão liga-se ao patrocínio de Luís XIV e da aristocracia francesa, enquanto construtores e músicos foram desenvolvendo progressivamente a sua construção. O repertório reflete esta evolução; Chédeville e Colin Charpentier representam a tradição mais antiga, baseada em danças e no carácter pastoral, enquanto compositores como Dugué, Dupuits, Tolou e Naudot demonstram como a musette se adaptou às formas da sonata de influência italiana, à harmonia complexa e a um contraponto mais elaborado. Boismortier, por sua vez, mostra até que ponto a música para musette se tinha tornado comercialmente bem-sucedida, publicando numerosas obras concebidas como meio de entretenimento acessível. Babington também dirige o grupo Baroque in the North (ed. FHR).
The European Guitar apresenta a guitarra como um instrumento versátil, capaz de reunir tradições europeias, mediterrânicas, folclóricas e populares. Em vez de se centrar na tradição da guitarra clássica espanhola, o repertório percorre a Grécia, a Sérvia, a Estónia, a Escócia e a França, explorando temas como a migração, o sentimento de pertença, a memória, a perda, a paz e a identidade cultural. O álbum combina obras contemporâneas originais com arranjos de canções populares, mostrando tanto a dimensão clássica como as possibilidades mais populares do instrumento. Eleftheria Kotzia escolheu, como obra central, a Suite Levantina, de Dušan Bogdanovic, escrita em 1995 e inspirada nas tradições musicais do Mediterrâneo Oriental, combinando-as com a formação composicional ocidental de Bogdanovic. A obra é constituída por cinco andamentos e utiliza um bordão em Fa, cores modais, ritmos irregulares, polirritmos e gestos de carácter improvisativo para criar um universo sonoro próprio. As restantes obras são de Ángel Cabral, Dinos Constantinides, Barbara, Eddie McGuire, Peter Maxwell Davies, Rene Eespere, Kostas Grigoreas e Charles Trenet (ed. Toccata Classics).
A orquestra Anima Eterna Brugge, sob a direção de Pablo Heras-Casado e com instrumentos históricos, registou a Sinfonia nº 3, Re menor, de Anton Bruckner – chamada a «Sinfonia Wagner» – na sua versão original de 1873. A obra reflete a profunda admiração de Bruckner por Richard Wagner, o dedicatário, e a partitura contém numerosos ecos wagnerianos, incluindo motivos reconhecíveis de Tristão e Isolda e A Valquíria. Ainda assim, Bruckner transforma essas influências através da sua própria linguagem sinfónica, em vez de se limitar a imitar Wagner. A sinfonia teve inicialmente uma recepção difícil. A primeira apresentação pública, na versão revista de 1877, foi dirigida pelo próprio compositor e terminou num célebre fracasso, com membros do público e até alguns músicos a abandonar a sala. A obra só alcançou amplo reconhecimento com a interpretação da versão posterior, dirigida por Hans Richter em 1890. A versão original de 1873 só foi ouvida em público em 1946 e contribuiu para estabelecer a importância do regresso à concepção original de Bruckner (ed. Harmonia Mundi).
Kaiku – Finnish Contemporary Works for Cello é um retrato da música finlandesa contemporânea para violoncelo através de seis obras de Sauli Zinovjev, Kalevi Aho, Cecilia Damström, Sebastian Fagerlund, Outi Tarkiainen e Lauri Porra. Embora os compositores tenham linguagens e fontes de inspiração muito diferentes, o programa revela um interesse comum em alargar as possibilidades expressivas e técnicas do solista. As obras vão desde a transformação fantasmagórica de um noturno romântico, em Sustained, de Zinovjev, até à representação musical da Covid longa, em Aveo, de Damström, passando pelo introspectivo Recitativo, de Fagerlund, pelo intenso e parcialmente virtuosístico Sanasi, kiveen uponneet, de Tarkiainen, e pela evocação de uma manhã de verão finlandesa, em We Lie Down Only to Get Up Again, de Porra. Jonathan Roozeman é o principal intérprete do álbum e um importante defensor do repertório contemporâneo finlandês para violoncelo; Johannes Piirto acompanha-o como pianista, em Sustained, e na sonata de Aho (Ed. BIS).
Inês Almeida
