A história de Maurice Ravel (1875-1937) é a de um “artesão da música”, pela sua dedicação à perfeição técnica, refinamento harmónico e uma orquestração meticulosa, aliando o rigor técnico à sensibilidade moderna. Nascido em Ciboure, no País Basco francês, Ravel mudou-se para Paris ainda criança. Filho de um engenheiro suíço e de uma mãe de origem basco-espanhola, a sua música sempre carregou o eco dessas raízes através de ritmos ibéricos e precisão mecânica. Ingressou no Conservatório de Paris aos 14 anos, onde foi aluno de Gabriel Fauré. Apesar do talento, era visto como um aluno pouco convencional e “rebelde” perante as regras académicas. Neste período, compôs peças que já mostravam a sua maturidade precoce, como a famosa Pavane pour une infante défunte (1899). A carreira de Ravel foi marcada por uma grande injustiça institucional. Tentou vencer o prestigiado Prémio de Roma cinco vezes. Em 1905, quando foi excluído da final apesar de já ser um compositor consagrado, o escândalo foi tão grande (o “Affaire Ravel”) que levou à demissão do diretor do Conservatório. Livre do conservadorismo académico, Ravel entrou numa fase de intensa criatividade, inovando com a Rapsodie espagnole (1907) e o virtuosístico Gaspard de la nuit para piano (1908), e trabalhou com os Ballets Russes de Diaghilev, compondo na obra-prima Daphnis et Chloé (1912). Embora dispensado por ser fisicamente franzino, Ravel insistiu em servir na Primeira Guerra Mundial como motorista de ambulâncias na frente. A morte da sua mãe em 1917, de quem era extremamente próximo, deixou-o devastado e quase o impediu de compor. Em homenagem aos amigos mortos na guerra, escreveu Le Tombeau de Couperin. Nos anos 20, Ravel tornou-se o compositor vivo mais famoso da França. Em 1928, compôs o seu Bolero para a bailarina Ida Rubinstein. Para sua surpresa, a peça — que ele considerava um simples exercício de orquestração — tornou-se um fenómeno mundial. Após uma digressão pelos EUA, onde conheceu George Gershwin, incorporou elementos de jazz nos seus concertos para piano. A partir de 1932, começou a sofrer de uma doença neurológica progressiva que afetou a sua coordenação e fala, embora a sua mente permanecesse lúcida. Faleceu em 1937 após uma cirurgia cerebral malsucedida.